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Ser No Mundo

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17
Out18

22 July, o dia em que a Noruega tremeu


M. Cordeiro

A Netflix lançou no passado dia 10 de Outubro na sua plataforma o filme 22 July, e que eu vi com avido fulgor. Sou algo fanática por filmes baseados em factos reais e ainda mais sabendo que foi realizado e produzido pelo mesmo criador de Capitão Phillips ou Voo United 93, o cineasta Oscar Paul Greengrass.

Este filme conta-nos a história do atentado perpetrado pelo lunático neo-nazi Anders Behring Breivik e que consistiu na sequência de um carro bomba na zona governamental da cidade de Oslo seguida de um massacre a tiro de caçadeira na Ilha de Utoya onde se realizava o acampamento de verão do partido trabalhista.

Eu não sou crítica de cinema, no entanto deixo-vos aqui a minha mais sincera opinião sobre o filme.

Apesar da participação de actores pouco (ou nada) conhecidos do grande público, os factos são contados com bastante emoção e verdade. Do ponto de vista do protagonista, Viljar Hanssen, um sobrevivente do atentado, que mostra não só o sofrimento físico como especialmente emocional dos jovens que viveram o terror naquela pequena ilha. Num grupo de centenas de jovens, amigos ou pelo menos conhecidos entre eles, viver a morte do colega do lado, sabendo que temos de continuar a lutar pela própria sobrevivência é uma experiencia atroz e que infelizmente marcará aqueles jovens para sempre.

Mas vemos também o ponto de vista do terrorista: frio, calculista, destemido e completamente louco. Todo o atentado estava milimetricamente planeado. Numa ilha sem escapatória possível, ele e uma caçadeira, começam, literalmente à caça daqueles jovens, perseguindo-os e matando-os a sangue frio como se fossem peças de caça e ele apenas um caçador. Tudo isto em nome de um ideal de raça pura, de anti-imigração e de protecção da pátria.

O filme podia ser uma simples ficção, uma história fictícia bem contada, mas sabemos que não é assim e que aquilo aconteceu mesmo, o que leva a que os nossos sentimentos de raiva, de tristeza e de perplexidade sejam ainda mais verdadeiros.

Se forem como eu, o filme vai fazer-vos reflectir. Em primeiro lugar porque este atentado remonta a 2011 e até hoje, 7 anos passados, a mente de alguns contínua a não se abrir para o verdadeiro cerne do problema. Em segundo, a posição do advogado de defesa do terrorista, que no seu papel nada confortável de defender um monstro, é profissional e defende o seu cliente o melhor possível, pondo em risco a sua própria vida e a da sua família (extremistas há de esquerda e de direita) e indo inclusive contra as suas próprias convicções.

E por último, e talvez a mais importante das reflexões: este atentado foi realizado por um Norueguês, um rapaz aparentemente como tantos outros, aparentemente normal.

Hoje em dia temos um terror enorme da violência vinda do exterior, mais propriamente de países árabes, com a história primeiro da Al Qaeda e agora do Estado Islamico andamos todos com um friozinho na barriga que não sai, e que infelizmente tolha as nossas escolhas, por exemplo, não vou viajar para determinado país, ou não vou fazer isto ou aquilo porque pode ser perigoso. O que é certo é que raramente pensamos no risco eminente que pode ser o nosso vizinho ou conhecido, que pode ser um qualquer cidadão.

Hoje quando ouvimos algo na televisão que nos parece absurdo enviamos directamente a culpa para os árabes e pronto, caso arrumado! Chamamos a todos os acidentes ou mortes de atentados terroristas e isso cria medo nas pessoas. E o medo é inimigo do progresso.

Ainda esta semana com o camião em contramão na 2ª Circular deve ter havido mais que um a pensar “Pronto la estão os terroristas”. E isto porque talvez seja mais fácil para nós classificar pessoas do que admitir que há muito maluco por aí.

No caso do dia 22 de Julho de 2011 estamos a falar de um louco, pertencente a um grupo, infelizmente cada vez maior, de simpatizantes de extrema direita. E digo infelizmente porque os extremos nunca são bons, nem para a esquerda (lembremo-nos de Lenine) nem de direita (nem vale a pena pronunciar o nome não é?).

O certo é que o medo é inimigo do progresso e por isso este medo quase irracional quanto a tudo o que é árabe faz-nos esquecer outros problemas bem maiores que os estados democráticos estão a passar. Estamos a esquecer esses terroristas que diariamente matam as suas mulheres, estamos a esquecer os bancos que enganam e roubam pessoas, estamos a esquecer que ainda há casas consumidas pelos fogos de há um ano que estão por construir, e assim por diante. Achamos portanto que todos os problemas dos países da Europa se vão resolver quando fecharmos fronteiras e não deixarmos passar mais ninguém. “Eles que sofram a guerra lá na terra deles” não é?! O problema é que não. O grande bolo de problemas da união europeia não foi nenhum árabe, muçulmano, africano que o causou, eles já existiam. E claro que as politicas de emigração deviam ser revistas, mas com pés e cabeça e não com um muro imaginário (ou não tão imaginário) entre nós.

Assim como o futebol, o terrorismo islâmico é utensilio dos meios de comunicação como engodo de massas, e se já há praí tanto racista reprimido ou frustrado, eles vão começar a sair da toca respaldados por uma trupe perigosa de extremistas que no futuro só conseguem ver um regresso ao passado.

Sei que o objectivo hoje era fazer uma simples crítica ao filme, mas esta foi a reflexão que eu fiz após o ter visto.

Como resumo deste post aconselho-vos a ver 22 July, está bem produzido, tem imagens e planos sequencia muito bem feitos (na minha humilde opinião) e os actores portam-se muito bem e defendem a história com muito afinco.

Vejam e reflictam…

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