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Ser No Mundo

Ser No Mundo

16
Out18

As crianças de hoje, os adultos de amanhã


M. Cordeiro

Já não sei como falar com uma criança hoje em dia, sobretudo com medo de levar uma boa de uma murraça na cara de algum pai… ou mãe que são quase sempre mais agressivas e atacam como um urso pardo a guardar as suas crias.

Eu até perceberia esta proteção dos pais se vivêssemos num mundo perigoso e complicado, onde o dia de amanha é incerto e a vida não sempre é como queremos... ah mas espera!!!

 

De facto nos dias de hoje o mundo não é como antes: Há guerras? Sim, mas são “lá” distantes não como na época medieval onde se não se morria da guerra, o da peste, morrias da fome, ou da falta de condições sanitárias. Claro que estou a falar das crianças ocidentais, que são as que aqui estão em causa, pois infelizmente estas condições medievais ainda são sentidas hoje por milhares de crianças por todo o mundo.

Há violência? Sim, mas nada comparado a épocas várias na história onde o facto de nascer de uma determinada condição económica ou social já queria dizer que algum dia entraríamos em pancadaria, ou onde as mulheres não tinham opinião nem mandavam no seu próprio corpo. Época em que matar “por justa causa” não era crime.

 

Ora digam-me lá, de que raios andamos a proteger as crianças hoje em dia? E o facto é que acho que andamos a protege-las de elas próprias.

 

Eu nasci no ano 90 e sou daquela geração em que os filhos começaram a ser vistos como uma espécie de Deus ao qual se põe um altar (o quarto), e se lhe faz oferendas (comprando todos os brinquedos do toy's'us… que sim na minha época ainda existia) segundo os pedidos.

 

Deus pediu a Abraão que sacrificasse o filho e ele pela sua devoção estava preparado para o executar! Ora aqui o Deus chama-se Martim, ou Sofia, ou Manel e o que te pedem é que executes a tua própria vida e vivas por eles e para eles.

 

O facto é que apesar de acharmos que os putos nascem ensinados, isso não é verdade. Claro que como em toda a história da humanidade somos mais ou menos condicionados pelo nosso redor, pela família, pelos costumes, tradições e cultura. Mas não, não nascemos a saber usar um telemóvel ou a ser mal-educados.

Não sou psicóloga nem nada que se lhe pareça mas creio que apesar de todos nós nascermos com uma determinada personalidade intrínseca (ainda me pergunto hoje porque é que eu tenho mau feitio), 80% (valor empiricamente constatado nos meus 28anos de vida) do que somos deve-se à educação e a historia de vida de cada um. 

 

Isto levanta também um ponto importante, é que a minha maneira de viver uma determinada situação e o que sou capaz de tirar de positivo ou de negativo dessa mesma situação vem implicitamente dos valores e educação que me foi dada. Senão vejam:

 

- Eu em miúda tinha todos os estereótipos possíveis para sofrer bullying, e o facto é que o sofri. Chamo-me Mercedes, era gordinha, usava óculos e era uma pequena nerd. Só por isto que eu vos descrevi vocês devem perguntar-se quantas vezes eu tentei suicídio... ora posso-vos dizer que NENHUMA, e nem NUNCA me passou isso pela cabeça.

Criei algo extraordinário que hoje em dia parece ser raro na criançada que é resiliência, perseverança e autoconfiança. Podiam-me chamar BMW, caixa de óculos, ou gozar com a gorda que acha que sabe jogar à bola... e estas coisas verdadeiramente aconteceram. O que eu fiz foi encontrar um caminho pelo qual não só os meus colegas me admirassem, como ainda gostassem de mim, e a minha melhor arma foi apenas gozar comigo própria.

Não agradei a Gregos e a Troianos, mas consegui ao longo do tempo fazer amigos e ultrapassei a primeira infância e adolescência de uma forma saudável e normal considerando as características “normais” para cada idade.

 

Eu não estou aqui a inferiorizar os casos de bullying extremo de que temos conhecimento, e hoje é verdade que as novas tecnologias levam a abusos muitas vezes difíceis de superar. Até o bullie se embruteceu com esta coisa da sobre proteção.

Mas bolas, quem não entrou em porrada na escola, quem não gozou ou foi gozado por alguém por uma ou outra razão, por uma ou outra característica. O que interessa é estar atento a essas situações e ajudar a recuperar o bullie e a apoiar a vítima. Isso sim passa muitas vezes ao lado de escolas, educadores, pais, família, aí sim é preciso ser atento e exaustivo. Pois a educação é tudo, e um bullie, uma vítima, um dia mais tarde serão polícias, bombeiros, médicos, engenheiros. A vítima não será sempre vitima e o bullie não será sempre bullie se nós, sociedade, fizermos algo por isso.

 

Hoje as crianças são protegidas até dos professores. Os pais hoje não admitem que as suas crianças levem um "puxão de orelhas" moral por ter feito uma ou outra coisa errada, ou por simplesmente ser casmurro e não aprender a tabuada do 9, porque para os pais as suas crianças são perfeitas... Só que não!

E a criança cresce com essa ideia parva de que é perfeita, e quando na vida se enfrenta a situações em que a realidade vem ao de cima e se apercebe do facto de a perfeição não existir, então ai vem o consumo de drogas licitas e ilícitas, uma alienação da vida, isto só porque a namorada/o o/a deixou; porque naquela entrevista de emprego ideal disseram que não tinha o perfil; porque um colega foi promovido em dois meses e eu que trabalho há 4 anos não; porque aquele faz isto ou aquilo e tem êxito e eu não. Enfim uma infinidade de situações que leva muitas destas crianças a não conseguirem singrar na vida porque acham que não têm de fazer nada e que a vida vai encarregar-se de lhes dar o que precisam, tal como os pais fizeram durante 18 anos das suas vidas.

 

Bom, na verdade, a não ser que sejas hippie e de facto acredites que a mãe natureza te vai dar tudo o que necessitas e que podes viver com aquilo que a natureza te da, será mais benéfico para ti e para a tua vida lutar pelo que queres e construir a tua própria sorte, agarrar as oportunidades e trabalhar para que a vida nos recompense, pois mais tarde ou mais cedo o fará. 

Claro que há pessoas que são realizadas sendo mulheres-a-dias, carpinteiros, canalizadores, mas em tudo o que faças tenta ser o melhor.

No mundo em que vivemos, num planeta sobrepovoado, tudo o que faças, faz bem senão certamente alguém vira atrás de ti e fará melhor. Por isso não critico, chineses, indianos, africanos ou outros estrangeiros que fazem as suas vidas em Portugal, porque na verdade o espirito de sacrifício dessas pessoas é beeeeem superior ao típico português que procura imediatamente um emprego e não um trabalho. Dizer que “o mundo é dos espertos e não dos que trabalham” é uma forma fácil de se desculpar pelo próprio fracasso e então aí verdadeiramente nunca chegaremos a lado algum.

Ficaram baralhados? Eu divido as duas palavras sim... emprego é aquele tipo de posto onde não fazendo nenhum tens um bom ordenado ao fim do mês, trabalho (ate pode ser o mesmo posto que o emprego) mas exige dedicação, sacrifício e investimento pessoal para ser bem executado e ser reconhecido por isso.

 

Já estou a fugir ao tema, ou não! As crianças de ontem são os adultos de hoje e as crianças de hoje serão os adultos de amanha...

 

Talvez seja dura nas minhas opiniões, ou por não ter filhos não tenha ainda a capacidade de ver o “problema” como um todo. Mas deixo para vossa reflexão a seguinte situação:

Uma colega de trabalho conversava comigo sobre os seus filhos (14 e 10 anos). Ela conta-me que o coelhinho do filho morreu e que então ela desesperada tinha ido logo comprar um igual para que o filho quando chegasse da escola não desse conta que o coelho tinha morrido. Bem, eu nem vos vou descrever a minha cara. Tentei disfarçar mas a perplexidade não é amiga de mascaras e certamente ela percebeu isso.

Eu não sei se sou eu que vejo mal as coisas, mas se o coelho morreu, fugiu, o que for, explica ao teu filho!!!

Porquê esta mania insana de não "frustrar" as crianças, de não lhes causar sofrimento. Claro que aqui vou ser crucificada, afinal eu não tenho filhos, mas não vejo a logica, nem o objetivo dos resguardar da realidade. Vocês entendem?

 

Uma criança desde o seu nascimento está em construção física, psicológica e moral. Muito especialmente até aos 18/20 anos essa construção é constante e muitíssimo importante. Acham que é escondendo a realidade às crianças que lhes vamos ensinar alguma coisa?

 

Eu sou sinceramente da opinião que cair é muito importante. Só caindo vamos perceber como nos levantarmos e seguirmos caminho. Claro que a metáfora da queda é simples. Mas é simples propositadamente para que seja compreensível.

Crianças são tratadas como adultos para muita coisa (uso de telemóvel, tablete e outras tecnologias, ver filmes e ler livros pouco adaptados à idade, entre outras coisas) mas depois há o reverso da medalha, e são tratados com todo o "mimimi" para coisas naturais da vida. 

 

Vou aqui afirmar sem medo: A frustração é essencial à construção da personalidade. O "não" perentório e diretivo dos pais é essencial. As vezes só pelo simples facto de que se o pai diz: "Hoje não vais ao parque", ou "Hoje não comes chocolate" entre outras coisas vai criar a necessidade da criança argumentar para chegar ao sim. Criatividade é também construída assim, deve ser construída assim, senão que outra maneira existe?

 

As asneiras que uma criança faz são importantes, e os raspanetes também. Se a criança corre pela casa a jogar à bola e parte uma janela, um candeeiro, etc, e não leva uma reprimenda como é que vai aprender que aquilo não é correcto? Depois vai para a escola, parte o vidro da escola e acha que é normal e que a directora tem alguma coisa contra ele porque o suspendeu durante 3 dias.

As asneiras são essenciais. E se tivermos a sorte de criar um adulto capaz de autocritica e de reflexão, ele vai lembrar-se dessas asneiras com carinho e perceber que foram essenciais para aprender a diferença entre o bem e o mal e o que está certo ou errado.

 

A maneira de falar de muitos jovens adultos hoje deixam-me com falta de esperança no futuro, pois apesar de serem formados, universitários não são capazes de argumentar, criticar, reflectir e pensar pela própria cabeça.

 

Conhecimento específico é importante, senão o que seria do cirurgião que não conhece a anatomia humana de A a Z. Mas será que esse mesmo cirurgião percebe alguma coisa da vida, sabe qual é o seu papel na sociedade, sabe a importância das suas acções quotidianas?

 

Vejo alienação completa, falta de sentido logico, falta de conhecimento, falta de vontade e sobretudo falta de ideias e pessoas capazes de sem medo dizer o que pensam.

 

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