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Ser No Mundo

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20
Out18

O que o futuro nos reserva e os super-humanos de Stephen Hawkings


M. Cordeiro

Há uns dias atrás interessei-me sobre uma notícia do Observador que tinha como titulo “Os “super-humanos” de Stephen Hawking que vão acabar com a Humanidade”, e como seria possível não se interessar?! Quando um dos maiores cientistas do mundo diz que a humanidade pode acabar é inevitável deitar um olhinho.

Na obra póstuma lançada nesta ultima semana com o título “Breves respostas a grandes perguntas" o astrofísico inglês propõe-se como o próprio nome indica dar respostas simples a questões fulcrais dos nossos dias.

Sendo a modificação genética uma realidade há muitas questões que nos podemos pôr, e talvez a mais importante seja, qual é o limite da sua aplicação. As questões de ética que se levantam com estes avanços extraordinários da ciência não têm uma resposta simples de sim ou não, mas todos os cenários devem ser postos sobre a mesa e analisados de uma forma ponderada.

Esta imagem de super-humanos alterados geneticamente para à sua nascença terem características específicas como serem mais altos, terem os olhos ou o cabelo de uma determinada maneira, serem mais prodigiosos a nível de memória, ou com traços artísticos mais destacados, e claro com uma resistência a doenças superior ao normal, é um tema que foi já abordado no filme de 1997, Gattaca, que certamente qualquer um da minha geração o visionou e o comentou nas aulas de filosofia na escola secundária. Ao avançar na leitura do artigo a história que envolve o filme voltou à minha memória e por isso voltei a vê-lo.

A comparação constante entre os “aptos” (geneticamente produzidos) e “não aptos” dá-nos uma visão clara do que Hawking nos propõe na sua obra. Lembrando que no filme é visível a decadência dos “não aptos”, renegados a realizar tarefas menores e sem possibilidade de aceder a determinados cargos, o que no filme chamam descriminação genética, e os “aptos” basta-lhes passar um exame sanguíneo para serem aceites no trabalho que quiserem.

Claro que o filme é sempre mais fantasiado que a realidade, e por isso torna possível um “não apto” conseguir infiltrar-se no mundo dos “aptos”. Mas na realidade é que se esta ficção se tornar realidade os super-humanos serão como tubarões e acabarão com a espécie dos pequenos peixinhos que somos nós: humanidade, pelo menos é assim que o imaginou Stephen Hawking.

Isso é uma coisa que me faz muita confusão, será que um super-humano perderia a sua humanidade? Afinal o que faz de nos Homens? O que determina a nossa espécie? E não estou a falar apenas da capacidade de raciocínio e do polegar oponível. Falo daquilo que nos faz pessoas e que nos permite construir uma humanidade onde dos aproximadamante 80 bilhões de pessoas que habitam este mundo não há um só que seja igual a outro. Sou talvez sonhadora e irrealista, mas as dificuldades, a doença, a persistência, a luta são a meu ver essenciais ao ser humano. Pelo que é que terá de lutar um super-humano? As imperfeições fazem-nos únicos e esses “acidentes” da genética determinam-nos como pessoas.

Depois podemos também discutir percentagens. Ainda voltando ao filme Gattaca, nele as percentagens são uma constante. Uma criança nasce e através do seu sangue chega-se à conclusão da probabilidade de morrer de uma ou outra doença, no caso do personagem principal, ele apresenta 99% de hipóteses de morrer antes dos 30 anos. Mas e onde está o 1%? De uma forma muito simples o um aqui pode ser representado por uma bola da sorte dentro de um saco com mais 99, mas o facto é que é possível de uma só tirada apanhar a única bola da sorte, ou não?

Constantemente ouvimos a frase: “A sorte somos nós que a construímos” e eu não estou 100% contra, no entanto, para que nós possamos construir a nossa sorte a oportunidade tem de nos ser dada e é aí que entra algo que não podemos muito bem controlar, chamem-lhe destino, chamem-lhe energia, chamem-lhe Deus, eu não sei o que é. No entanto eu por ter nascido numa família portuguesa com uns determinados valores e uma determinada posse económica tive oportunidades diferentes de alguém que nasceu numa família no Ruanda sem nada para comer, e isso, nós não podemos controlar. As oportunidades são diferentes e reparem que eu não disse melhores ou piores, mas são aquelas que nos são dadas viver.

Com uma estirpe de super-humanos a oportunidade vai perder valor. Para já porque só o facto de alguém ter posses económicas para criar um ser humano geneticamente alterado já implica uma certa descriminação. Ou seja, teremos super humanos, super ricos, super tudo.

A ideia de poder extrair a melhor parte de cada um dos progenitores e criar um ser feito à imagem de uma certa perfeição é para mim assustador. No entanto, não sei até que ponto seria o suficiente para renegar a Humanidade como a conhecemos a lixo humano.

O poder do sonho, e da auto-determinação ultrapassam qualquer entrave que a vida nos possa colocar. Mesmo o menino que nasce numa família pobre do Ruanda pode chegar a ser médico ou engenheiro, o caminho será mais duro, mas hoje o encanto que tem a Humanidade como a conhecemos é saber que tudo é possível.

As células estaminais têm salvado vidas, e ao que parece (segundo o artigo do Observador) a edição genética também já foi usada para esse fim no hospital Great Ormond Street no tratamento de crianças com leucemia. Será que não conseguimos ficar por aí?

A ciência avança todos os dias, mas por vezes a desumanização das civilizações pode tornar muito perigoso esse avanço. Fazendo uma comparação completamente idiota, vejam o que aconteceu com a internet! Quando nasci não havia internet, e as redes sociais são uma realidade para mim desde há 10 anos a esta parte, mas a evolução das pessoas nas redes sociais é algo gritante. Tornamo-nos ávidos animais em busca de sangue alheio, e a não ser que partilhes gatinhos a tocar piano, ou bébés a rir, serás certamente a um momento ou outro inundado de comentários agressivos, idiotas e sem sentido. Falamos de liberdade de expressão mas nem quando te sentes livre para escrever o que te vai na alma deixas de ter aquela pequena censurinha de pessoas que não têm mais nada que fazer na vida que criticar a opinião alheia.

Enfim, isto para vos deixar a pergunta, é mesmo a este tipo de pessoas que querem deixar a possibilidade de criar super humanos? Eu não.

Quanto á obra de Setephen Hawking anseio a sua versão portuguesa para poder deleitar-me nas suas opiniões fundadas, e para poder guardar em minha casa um pequeno pedaço desse que foi um dos maiores cientistas do nosso tempo.

 

 

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