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Ser No Mundo

Ser No Mundo

10
Set19

Ode aos amigos


M. Cordeiro

Tantos textos sobre amores, paixões e desilusões e não encontro um único texto sobre essas pessoas especiais que são os amigos… hoje decidi mudar isso.

Todos nós nascemos com uma família… boa, má ou assim-assim mas estamos rodeados da família nos primeiros momentos da nossa vida. O nosso círculo de relações limita-se aos pais, aos irmãos, alguns tios e primos.

Dizem que os primos são os nossos primeiros amigos e eu concordo plenamente com isso... mas é quase uma exigência do guião. Ao longo da vida muitos desses contactos vão-se perdendo ou estreitando e aí sim reside a amizade.

Um dia vamos para a escola e encontramos outros como nós. Meninos e meninas a brincar e a trabalhar. Esse trabalho árduo que é a inclusão, a aceitação do outro. Só por si isso podia facilmente ser uma disciplina.

Nessa altura não temos muita noção da importância daquelas pessoas na nossa vida. O que é certo é que com o avançar da idade a nossa vida, as nossas conversas, as nossas histórias vão girar ao torno dessas pessoas. Não existe mais apenas o que nos é dado pela família mas tornamo-nos pessoas independentes e crescemos e formamo-nos através da aglomeração de todos estes factores.

É usual escutar frases como “Se deixou de ser teu amigo então é porque nunca foi!” mas eu discordo absolutamente. As épocas que vivemos, as situações, os desejos ou gostos que temos em fases diferentes fazem com que pessoas diferentes sejam atraídas ou repelidas de nós. Se tivesse de nomear todos os meus amigos um por um levaria anos pois apesar de preferir círculos restritos de amizade (comumente chamado “de poucos amigos”) cruzei-me com um número infindável de pessoas que me mudaram, que me fizeram melhor e que nem que seja numa pequena parte de mim continuam a viver.

A escola é o primeiro círculo social em que somos obrigados a estar. Então já que somos obrigados, vamos fazer aliados, vamos juntar-nos em grupos, jogar à cabra-cega ou saltar à corda para matar os tempos mortos. Começamos a forjar as amizades inesquecíveis. E aqueles meus amigos da primária sabem do que falo. Não fazemos parte do dia-a-dia uns dos outros mas está sempre lá aquele prazer em ver que uns casaram, outros tiveram filhos, outros tiveram o êxito profissional que queriam, estão felizes e realizados... e é inevitável uma pequena melancolia, uma imagem mental de nós com pouco mais de um metro de altura com mochilas que pareciam carapaças de tartaruga a chegar à escola depois das férias com aquele sorriso marcado porque nos voltamos a encontrar. Aqueles relatórios intermináveis das férias: “Onde foste?”, “O que fizeste?”.

É a fase mais pura de descoberta, das primeiras brigas também, claro. Mas é avançar na vida com aquelas pessoas que nos ensinaram ou nos fizeram apenas descobrir o que não sabíamos sobre nós próprios. Que nos admiravam pelos nossos talentos e que se juraram serem “best friends forever”. Em certa parte sim. Levo-vos no pensamento, na alma, nas memórias.

Chamem-me saudosista, não será mentira. Cada vez gosto mais de perceber que o meu passado me fez, me construiu e tenho a dizer sem nenhum medo a ser pouco modesta que construiu algo bom.

Hoje com 29 anos dou valor a cada momento. Dou por mim a perceber que mesmo as angustias e depressões adolescentes valeram a pena. Percebo que os meus pais sempre tiveram razão ainda que eu não o queira admitir… mas foi tão bom infringir as regras e sofrer as consequências.

Hoje volto a ter contacto com algumas pessoas do meu passado e é engraçado perceber que não passou um único dia por nós. Que o carinho está lá e que continuamos a sentir-nos à vontade de dizer o que nos vai na cabeça sem medo a sermos julgados.

A faculdade foi outra epopeia. Em parte parecida com a escola, mas com um extra: o interesse comum numa área do conhecimento. Quer queiram quer não isso pode dar um bom casamento… aliás já deu alguns!

A maturidade é outra. Os 18 anos mudam a maneira de ver o mundo. Na realidade há um mundo inteiro que gira à nossa volta e nós só queremos alcançar tudo. Ganhamos espirito crítico, político e social. Juntamo-nos em marchas em prol da nossa própria profissão usando gritos de ordem que nos parecem tão reais. Achamos que vamos mudar o mundo de ontem para hoje… só que não!

Somos mais livres e percebemos lentamente que todos os nossos actos têm consequências. Adoramos coisas com tanta rapidez como as odiamos e oscilamos entre o bom e o mau como numa corda bamba. Aí entram os amigos. As frustrações, os desamores, as festas, a descoberta de alguns excessos e aquele grupo de pessoas sempre a puxar por ti. As suecadas na esplanada do bar… ou escapar a aulas para apanhar ar, porque a vida é demasiado curta como para saber como funcionam os microbiotas. É justo… ninguém disse que os jovens adultos são sensatos. As férias juntos, a carta de condução, as primeiras viagens… histórias intermináveis.

Para mim seguiu-se a época difícil. A faculdade foi uma brincadeira de crianças em relação às decisões que tive de tomar de seguida: A emigração.

De tanto falar dela parece que se torna banal, que o sofrimento não é real, afinal só estou a duas horas de avião de casa. Mas muda tudo. Até as amizades. Como é que vais continuar a fazer parte da vida das pessoas que te são importantes se estás longe a tentar lutar contra o medo, a tristeza e o próprio sentimento de fracasso?!

Digo-vos eu que não é fácil. Mas até na pior tempestade se consegue encontrar um abrigo. E mais uma vez aparecem eles: os amigos. No caso não foram eles que apareceram, mais bem eu que cheguei e logo tive de partilhar casa. E fomos tão felizes, e tão incrivelmente loucos e inconsequentes.

Neste estado passamos a uma vertente diferente de amizade, porque é difícil descrever e diferenciar dos anteriores. Todos eles têm a sua importância, mas quando se está longe de casa, dos amigos, da família, estas pessoas transformam-se em tudo isso para ti. São lar, são família. As nossas preocupações unem-nos mais do que nos separam, e o facto de termos de sobreviver em terreno hostil abre a porta do nosso coração.

Encontrar pessoas num país a 2000km do meu que nunca encontraria no meu próprio país tem que se lhe diga. E é uma riqueza que se conserva como um diamante, porque pessoas como eles não existem outras iguais nem melhores no mundo.

Quando nos conhecemos a estranheza e a apreensão dão aso a danças em pijama, a cafés até às tantas, a jantares que nunca queremos que acabem, a conversas intermináveis e a silêncios que não nos incomodam. Dão lugar a uma verdade que dói, mas que nos liberta e que nos sossega pois sabemos que aquelas pessoas podem magoar-nos, sim, mas não nos vão desiludir.

Há afastamentos, discussões, reconciliações, mas acima de tudo há muito amor, muita admiração e um carinho quase parental uns pelos outros. Não dá para estar longe de vocês sem ter saudades, não dá para ter uma conquista e não querer logo partilhar convosco… acho que isso quer dizer tudo.

Para finalmente terminar este texto que vai longo, agradeço-vos a todos por existirem, por terem estado ou fazerem ainda hoje parte da minha vida.

E sem querer pôr de parte ninguém… tenho aqui de fazer uma ode especial à família, aqueles que entram e não saem, que se colam nas paredes do nosso coração para sempre e dos quais não podemos nem queremos desgrudar.

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