Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Ser No Mundo

Ser No Mundo

27
Out18

Quando até os pinguins são menos preconceituosos que as pessoas


M. Cordeiro

Nestes últimos dias tenho andado algo afastada da escrita por situações diversas (leia-se aqui trabalho, trabalho e mais trabalho). A vida de emigrante não está fácil e por isso é preciso puxar pelo cabedal para conseguir chegar onde queremos seja lá isso onde for.

O que me traz aqui hoje é a actualidade. Nestes dias onde estive afastada da escrita não estive assim tão afastada da leitura diária de jornais e revistas (mais que não seja os títulos “gordos”) e claro que algumas opiniões se foram formando na minha cabeça que agora vou tentar pôr de forma ordenada em “papel”.

Já devem ter reparado que sou bastante sensível aos temas relacionados com racismo e preconceito, seja de raça, orientação sexual, religiosa ou politica. Sim, pois apesar de defender o meu ponto de vista, tenho uma mente aberta e aceito comentários contraditórios à minha posição, o que não suporto mesmo é a falta de respeito, e o odio destilado não só em comentários e posts mas mais grave ainda em atitudes quotidianas as quais até já tiramos importância de tão banais. ERRADAMENTE!!!!

Mas é exactamente desse odio que hoje venho aqui falar. Não me vou pôr aqui a falar da etimologia da palavra, pois seja qual for a sua origem todos nós sabemos o que significa, e o tão desprezível ela é.

O Imperador romano Caio César (Calígula) após ter sido confrontado com o facto de que o povo o odiava (o tipo era mesmo execrável) proferiu a seguinte frase “Oderint, dum metuant“, ou seja, “Odeiem, desde que temam”. Pois bem, ele acabou assassinado por isso acho que não deu grande resultado ser odiado.

Voltando aos nossos dias, para ser sincera, acho que todos nós já sentimos odio por alguma coisa, ou alguma situação. Afinal há coisas que nos são insuportáveis e isso causa-nos odio. A questão aqui reside em perceber de onde vem esse odio e a quem é dirigido.

Os brasileiros por vezes utilizam a expressão “Que odio!” quando algo lhes corre mal, ou quando se sentem frustrados. Um pouco como o nosso “Cum caraças!”. O problema é que o ódio dirigido a outros é demasiado destruidor e nefasto e é isso que podemos facilmente observar na sociedade actual.

Vemos cada vez mais lideres a criar legiões de fãs através do odio contra determinados grupos da sociedade, e claro que isso não é novo, simplesmente é cada vez mais visível, cada vez mais palpável e, para mim, cada vez mais insuportável e assustador.

Senão reparem só no caso que ocorreu num voo da Ryanair: todos nós vimos o vídeo de um homem de uma certa idade a agredir verbalmente e de uma forma até bastante agressiva uma senhora negra apenas porque ela se sentaria na mesma fila que ele. Pois bem, o ultimo que li sobre o caso, é que o senhor diz não ser racista e que aquilo foi apenas porque ele estaria nervoso e se irritou contra a senhora. Sejamos honestos, por mais irritados que possamos estar não vamos começar a atirar por ai frases como “vaca feia e estupida” ou “Não quero sentar-me ao pé da tua cara feia”, são mais de 3 minutos de insultos gratuitos a uma senhora apenas pela cor da sua pele.

Esta situação fez-me lembrar de um anúncio feito em Portugal em 1999 exactamente sobre uma viagem de avião onde uma senhora caucasiana pede à hospedeira de bordo para trocar de lugar pois não queria estar sentada ao lado de um rapaz negro. No entanto no anúncio fica bem claro o lugar onde é posto o racismo, mudando o rapaz de lugar para a primeira classe do avião.

No caso real desta ultima semana a senhora foi forçada a trocar de lugar sem ter feito nada de errado. Porquê?! Onde é que está o erro desta mulher?!

Este odio absurdo e sem qualquer fundo sobre aqueles que em alguma medida são diferentes de nós, apenas por isso, pela diferença não é do nosso século, ou por outras, não devia ser.

Se eu odeio este senhor?! Bom, vendo o vídeo há uma certa fúria que me toma e faz o meu coração entrar em ebulição, mas no fim, e analisando bem as coisas, tenho pena deste senhor. Exactamente isso: pena. Pena porque é um coitado ignorante, frustrado e certamente incapaz de ser feliz. Porque é assim que imagino estas pessoas. Com tanto odio guardado dentro delas não há lugar para a alegria e para o amor. Não pode haver, é impossível.

Tenho pena de que ele não tenha sido obrigado a desculpar-se pessoalmente. E que venha deitar as culpas sobre uma irritação momentânea. Por favor, é ridículo! Só mostra ainda mais o vazio onde vive este senhor, incapaz de perceber que sim é racista e que foi ignóbil contra outro ser humano.

Aqui não vou entrar no debate destes dias onde se põe a questão será que este senhor devia ter sido expulso do voo ou não?! A companhia aérea é formada por pessoas que certamente nunca se tinham vistos confrontados com uma situação semelhante (ou pelo menos assim espero, que tenha sido um caso isolado) e agiram segundo aquilo que acharam no momento mais correcto. Anulando o acesso de odio daquele passageiro, gerindo os próprios sentimentos face à situação e continuando o embarque o mais normal possível para os outros passageiros. Não é fácil decidir em tal cenário.

Agora é um caso de polícia, e esperemos que as medidas certas sejam tomadas, pois de uma forma ou outra isto é um crime de odio racial e deverá ser punido.

Quando constatamos que até os pinguins têm uma mente mais bem formada que a de alguns seres humanos, pomo-nos questões sobre o futuro. Onde irão crescer as nossas crianças e com que valores?!

Eu quero que os meus filhos, um dia que os tenha, cresçam num mundo onde um negro, um índio, um caucasiano (...) tenham efectivamente os mesmos direitos e não apenas no papel. Onde se deixe de ter essa ideia arcaica que há uma raça europeia a ser preservada. Onde se consiga perceber o ridículo na frase “Eu não sou racista mas não suporto negros!”.

Eu quero que os meus filhos cresçam num mundo onde não se põe “mas” ao amor. Onde não só dois pinguins machos sejam capazes de criar um bébé pinguim mas que os humanos percebam que casais homossexuais são capazes de criar seres humanos felizes e capazes de decidir pelas próprias cabeças. Onde não digamos mais que é anti-natura a homossexualidade, onde não retrocedamos no tempo voltando à época de castrações químicas ou da prisão pela orientação sexual.

E especialmente não quero criar os meus filhos num mundo onde o odio é mais propagado que o amor, que a violência se tornou banal. Num mundo onde viramos a cara às injustiças e que nos curvamos aos governos que querem liderar pelo medo.

Eu quero formar seres humanos conscientes, capazes de lutar da forma certa pelos seus ideais e valores, sem “atropelar” ninguém e levando sempre nas suas mãos, nos seus actos e nas suas acções amor, aceitação e respeito.

Mais sobre mim

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D