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Ser No Mundo

Ser No Mundo

15
Out18

Renascer das cinzas


M. Cordeiro

Faz hoje já um ano em que o meu mundo quase ruiu. Em que o medo tomou conta de mim, aqui, a uma distância longa, tão longa como a tristeza que se apoderou de mim e demorou-se.

Fazia o turno de noite, mais um dia normal de trabalho, quando de uma forma quase sem importância a minha mãe me manda a mensagem que abalou o resto do meu serão “O fogo está perto da terra, mas não te preocupes, os avós estão bem!”. Eu sabia que não podiam estar bem, e que se a minha mãe tinha mandado aquela mensagem era porque o fogo lavrava caminho para chegar a S. Joaninho num piscar de olhos. Telefonei aflita sem saber o que fazer. “Vou já meter-me num avião!” pensei eu, mas para quê, o fogo já lá estava e nada havia a fazer senão aguentar a agonia da espera que parecia prolongar-se demasiado tempo.

Não vos vou contar com pormenor todos os momentos daquela noite, pois entre a nevoa das minhas lagrimas e a obrigação da minha profissão sofri, e sofro hoje ao recordar aquele dia. Pessoas conhecidas, aquelas que via alegremente no café, no clube, que passavam e diziam sempre “Ola, bom dia!”, pessoas próximas, dali daquele meu cantinho, faleceram, outras perderam tudo, e quando digo tudo não é metafórico. Perderam a casa, perderam o sustento (aviários, maquinaria), perderam os livros da escola, perderam os brinquedos com que brincavam, e sobretudo perderam a calma e a alegria.

Ainda hoje aquela aldeia que me viu crescer, onde tanto aprendi, e onde quero sempre voltar, cheira a fumo e cinza, cheira a lagrimas e tristeza, cheira a perda e raiva. O fogo só pode ter sido posto, foi rápido, foi feroz, e varreu de uma ponta a outra todo o concelho de Santa Comba Dão, chegando inclusive a queimar casas na cidade. Destruiu o trabalho de muitas vidas, mas mais triste ainda, destruiu muitas famílias.

Eu, naquele dia perdi a esperança, pensei que a minha família (velhos, jovens, crianças) não ficariam para contar a história. O meu avô andou desaparecido, “no meio do fogo”, nas estradas que estariam cortadas, pois perdeu a cabeça, os sentidos e a força, ao ver tudo o que ele construiu ruir. Meteu-se no carro e lá foi ele, e nós desesperados não sabíamos nada. Íamos tendo relatos de alguns familiares que se tinham refugiado na Igreja da Aldeia, edifício todo em pedra, que em princípio seria o ultimo a arder.

Felizmente, alguma força superior pegou na mão do meu avô e levou-o para onde nada lhe pudesse acontecer, e por volta das 2h da manhã soubemos que estava no Quartel dos Bombeiros algo desnorteado mas bem.

O meu avô tem quase 80 anos, e foi duro para ele, alias, foi duro para todos.

Quando cheguei no fim-de-semana que se seguiu ao acontecido a terra ainda fumegava, o cheiro de fumo era quase insuportável, as lagrimas das pessoas eram quase constantes e os sinos da igreja anunciavam morte e destruição.

A casa onde cresci, sim, não é a casa onde habito. A casa onde brinquei, a casa onde me sentei nas escadas a comer tremoços e a beber minis, onde passei férias. Essas recordações arderam. E num gesto quase desesperado no dia em que fomos ver os escombros do que havia ficado, recuperamos 2 ou 3 objectos intactos, ou quase, que simbolizam aquilo que perdemos. E talvez esteja a ser egoísta com este relato, pois comparado com outras pessoas não perdi nada, e muitas vezes me senti culpada de me sentir triste e de chorar a cada vez que recordava uma situação passada naquela casa. Mas hoje não me culpo mais, aquela foi a minha realidade, para a qual também tive de fazer um luto, e perceber que as coisas não seriam mais como eram.

Hoje, um ano depois, aquela casa renasceu, graças à força, coragem e determinação de um só homem: o meu avô.

Sempre admirei aquele homem de semblante austero, mas com um coração que muitas vezes não lhe cabe no peito. Uma pessoa genuinamente boa, afável, comunicador nato. Um homem que com todos os seus defeitos (afinal quem não os tem) adapta-se aos tempos com as competências que tem, e trabalha a terra por amor, e as vezes também casmurrice. Um homem com quem aprendi uma coisa muito importante: nunca tentes mudar o que é genuíno. E o meu avô é genuíno.

Com a ajuda de alguns (nem camaras, nem seguros pelos quais pagamos 20 e só nos dão 5), pessoas elas também genuínas, e com aquela força de vontade imensa, aquela garra de viver que nunca lhe falta conseguiu erguer de novo aquela casa. Fez à sua maneira, no seu tempo, pagando conforme fosse pudendo, não devendo nada a ninguém e hoje lá está ela pronta para que eles se possam mudar, para que a minha avó possa ter a mobilidade com a cadeira de rodas que não tinha na casa antiga, e para que a vida recomece aos 80 anos.

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