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Ser No Mundo

Ser No Mundo

02
Dez18

Sobreviver à profissão


M. Cordeiro

Por vezes é difícil sobreviver à minha profissão. Nem todos os dias vidas podem ser salvas, nem todos os dias vemos sorrisos na cara dos nossos pacientes, nem todos os dias achamos justiça nas decisões divinas de vida ou morte.

Sou enfermeira faz já 6 anos, e cada dia é um desafio. Cada dia uma história diferente que nos enche o peito ou simplesmente nos deixa num vazio profundo. Parece que o mundo tem regras que não entendemos, ou nos parecem demasiado desumanas para serem reais.

Era uma pessoa religiosa e crente em Deus e na sua bondade, mas ainda que faça um esforço por perceber o porquê do seu arbítrio, por vezes (alias a maior parte das vezes) não o entendo. E muito sinceramente se ele tem um propósito em tudo o que faz eu não percebo qual é.

Já perdi esse ímpeto quase infantil de querer salvar o mundo, mas trabalho a cada dia para que o mundo dos meus doentes seja um pouco melhor, pelo menos quando eu estou com eles. Um sorriso, uma palavra de apoio, um toque na mão e o silêncio necessário para ouvir os seus lamentos, as suas frustrações, as suas angústias. Ainda que tenha dormido 3h, ainda que me doa as costas, ainda que tenha mais 10 doentes para atender, esse tempo ínfimo que passamos com as pessoas tem de valer a pena. E eu quero acreditar que aqueles 5, 10, 15 minutos que estou ali podem mudar um pouco a vida daquela pessoa.

Escrevo este texto porque há situações que me deixam sem chão. Talvez não seja só esta mas o acumular de muitas outras. O que eu sei é que nada me tinha feito reflectir tanto até hoje sobre o propósito disto, daqui estarmos, de fazermos o que fazemos.

A morte não me assusta, eu encaro-a todos os dias. O que me assusta são os seus contornos. Um pouco como um filme de terror que o que assusta não é aquele monstro feio mas a maneira como ele aparece nas cenas, os seus gritos, e especialmente a sua frieza.

A morte é a coisa mais natural da vida, e muitas vezes a minha visão face a ela é tão natural e desprendida que acabo por chocar as pessoas que me rodeiam.

Não sei se é uma mascara que eu ponho ou se efectivamente esta profissão me ajudou a ver que o pior não é morrer mas sofrer. Eu muitas vezes faço piadas ou riu da morte, um pouco no espirito daquele humor negro que a maior parte das pessoas não entende.

A morte está presente todos os dias, pois a cada dia nos aproximamos mais do dia D e isso é algo que não vamos mudar. No entanto, a vida é uma linha e normalmente só quando a linha está fragilizada é que vai quebrar. O difícil está viver com uma quebra abrupta na linha da vida e que mais que uma morte vai transportar toda uma família para uma realidade cinzenta, escura e fria para o resto da vida.

O texto pode não ser claro, mas a minha profissão não me permite falar mais do que no abstrato pois temos de preservar a privacidade dos doentes, e isso é um peso que temos de carregar todos os dias. As nossas frustrações, os nossos medos, as nossas tristezas são guardadas num canto longínquo da nossa mente e o desabafo passa a ser apenas interno. Só nós sabemos o que vimos, o que passámos, o que fizemos e como nos sentimos.

Não sei que consequências terão todos estes cantos na minha mente repletos de momentos, de lagrimas que engoli, de raiva que apaziguei com a almofada, de frustrações que tive de ultrapassar sozinha e de horas e horas a olhar o tecto do meu quarto e a fazer mil e uma perguntas sem resposta.

Ensinaram-me o que era a empatia, ainda corria o meu primeiro ano de estudos em enfermagem, e até hoje aprimorei essa competência da melhor forma que soube, o único que ainda não aprendi e talvez nunca vá aprender a esquecer o que vi, e seguir em frente sem olhar para trás.

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